Mestre León,
Ando muito preocupada com minha filha. Completou 15 anos e resolvemos dar um presente a ela: uma festa chiquérrima numa das melhores casas de recepção da cidade e uma viagem à Disney. A menina rejeitou ambos. Não quer fazer chapinha no cabelo, não quer usar salto alto. Além disso, não quer comer comida japonesa com palitinhos amarrados na borrachinha, se recusa a aparecer nas colunas sociais e namora um estudante de matemática. Desistiu do curso de Direito para cursar Artes Gráficas. O que faço? (Maria Ângela Pessoa Dutra)
Cara senhora:
Sua filha é mesmo um caso perdido. Se for filha única, pobre mãe. A senhora deve estar se sentindo a última das mães, tendo uma filha tão destrambelhada. Uma viagem à Disney é um programa imperdível, principalmente se a senhora for uma nova-rica e pretendesse que a menina trouxesse um monte de bugigangas made in China de Miami. Aconselho que a senhora vá à rua 25 de março em São Paulo e faça a feira por lá mesmo. Quanto à festinha, acredito que era um sonho seu, que deve ter tido uma infância miserável e agora que superar suas frustrações de pobre numa festa de bacana do interior. Sua filha deve ser um ser muito infeliz em conviver com a senhora e com seu marido. Se a mocinha não quer fazer chapinha no cabelo isso se deve ao fato dela ter percebido que a mãe já derreteu o juízo de tanto secador nos cabelos estirados à força e o Sato alto lembra a amante do seu marido que, cá entre nós, está certíssimo em lhe trair. A senhora está precisando de uma terapia urgente. Este seu desejo de ter uma filha juíza deve-se ao fato da sua vida ser uma roubalheira só, com um inexplicável padrão econômico que nem o namoradinho matemático dela saberia explicar. Deixe a menina em paz, velha sem-vergonha. A menina vai ser grafiteira de muros numa tentativa radical de se safar das irmãs patricinhas, do irmão apagado pelo pai analfabeto que o obrigou a estudar Direito numa faculdade particular em dois anos. Creio poder ter lhe ajudado neste conflito tão sério. Boa sorte!
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