Canções do amor demais
Se vivo fosse hoje, Tom Jobim estaria completando 80 anos. Mas chega de saudades...
O legado de Jobim é muito mais do que as geniais composições que fez com inúmeros parceiros. Para mim a sua herança é a forma solta de viver. Jobim ao piano com o velho copo de whisky-parceiro. Jobim na farra entre amigos, improvisos, projetos, sons, ritmos. Jobim e sua brejeirice de Copacabana a Nova York.
Tenho pena deste Brasil pós 1980´s. Uma geração que não bebe, não fuma; uma geração saúde e coisas sem-futuro do gênero. Não bebem mas se drogam com musiquetas de laboratório tipo Limão com Mel, Babado Novo, Vixe Mainha. Nunca ouvi tanta droga. O LSD de Janes Joplin, a maconha de Renato Russo e Cazuza, a heroína do Queen nunca fizeram tanta falta neste mundo higienizado. Agora a droga da vez é a bomba de academia, corpos anabolizados, músculos artificiais.
Pra mim a grande droga mesmo é o hiper-narcisismo. Li num jornal que encontraram uma miss universo que não tinha uma só intervenção cirúrgica! Botox, restilane, anfitaminas, hiberáricas, lipo. Chapinha, escova progressiva, formol. Pô! É muita droga permitida. E quando se junta tudo temos a degradação total. Ele anabolizado, travestido de marcas famosas falsificadas, cabelos longos estirados. Ela magérrima, peito siliconado, cabelo de chapinha e escova permanente, loira. Ele+ela: ingresso para o show de Aviões do Forró. Ele não pode tocar no cabelo dela pra não desmantelar o alisamento. Ela não pode tocar no cabelo dele pra não despentear o gel. "Mas, Joni, quando eu lhe conheci, achei que você tinha o pinto maior... Estava bêbada com redbull, gato?" "Não, fia, é que eu estou tomando umas parada pro peitoral aumentar e o bilau diminuiu um pouco..." Vê-se um progresso neste diálogo. Talvez os rapazes estejam superando aquele velho problema masculino do tamanho do documento. Afinal o pinto não aparece tanto quanto os bíceps ou o peitoral. E talvez eles nem precisem mesmo de pênis e vaginas funcionando a pleno vapor, pois na maioria das mesas os casais nem se falam na ânsia de atender a ligações de seus modernos celulares. A transa é o espelho da academia ou o espelho do salão de beleza.
Saudades de Tom, seus whiskies, seu charuto. Saudades de Vinícius, suas bebedeiras que nos trouxeram as mais lindas canções de amor. Saudade de Elis, de gente que chora sem se preocupar com a maquiagem e com os vizinhos.
Menos fest-verão e mais samba-canção!
Sobre amor e restos mortais
"Eu te amo e por isso não necessito de ti. Tu me amas e por isso não necessitas de mim. Somos, assim, deliciosamente, desnecessários!"
(Roberto Freire, analista).
Revirando meus papéis pra início de semestre, encontrei esta frase do somaterapeuta Roberto Freire em seu maravilhoso livro Ame e dê vexame. Sei que se trata de um amor anarquista e também sei que as palavras amor e anarquismo em tempos modernos de amor romântico não combinam em nada.
O amor romântico é uma das mais cruéis invenções dos modernos. Ele é masculino, pesado, sobrepõe desejos e define duas posições pré-determinadas: o amor-dominante, aquele que manda, escolhe, define, conduz, e o amor-dominado, aquele que é passivo, que obedece, que se deixa levar. As maioria das provas de amor vão neste sentido. “Tire esta saia em nome do nosso amor”, “Tire esta bermuda que eu quero você sério”. Letras de música, poesias, uma vasta literatura em prosa reforçam a cada dia esta idéia, o que não tem nada a ver com homem e mulher. Muitas vezes é a mulher que exerce o papel de amante-dominante. “Se você deixar de beber todas as quartas com seus amigos eu prometo ser uma esposa mais dedicada à casa...”
No Brasil, uma forma de amor romântico é mais perversa que as demais: os amores das telenovelas. Nestas, amar é sinônimo de sofrer. Quanto maior a dor, melhor o final feliz. Como parte da cultura nacional, as pessoas vão lidando com este discurso de maneira natural, acreditando que o que as novelas propagam é o verdadeiro e único amor. Amor dicotômico. Os bons sofrem, mas vão ser recompensados no final da trama. Nisto o escritor Manoel Carlos é bamba. Ele e suas Helenas babacas. Manoel Carlos conseguiu superar a noção de Amélia (aquilo sim é que era mulher...) para a noção de Helena. E Regina Duarte, a namoradinha sexagenária do Brasil, ainda consegue traduzir com aquela fala mansa, aquele jeito adocicado com aspartame, 100% artificial, irritante. O capítulo termina e os depoimentos corroboram este estranho verbo amar-possuir.
O amor para a maioria das pessoas funciona como uma pipa. Uns controlam a pipa com pouca corda. Outros soltam mais a pipa, com mais corda, a deixando voar mais alto. Mas ambos a controlam. Para mim o amor é balão. Eu preparo no solo, o inflo e o solto no ar. Sem amarras. Gosto de ver a amor voar, apenas. Se ele achar que o vôo é bom e nunca mais quiser voltar, é uma questão dele. Mas eu não posso, por amar demais, colocar amarras e controlar seu vôo. Assim é pipa, não é balão. O amor é generoso, se desliga.
Que tal desligar a TV e amar demasiadamente cultivando a liberdade dos sonhos compartilhados e dos desejos libertos?
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